A Rotina de uma motorista – Entrevistamos Norma Edina Rezende

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Ela é mulher, mãe e motorista e conseguiu romper todas as barreiras do preconceito e machismo em Serra Negra, cidade onde mora e trabalha como motorista de van, levando diariamente crianças que possuem algum tipo de deficiência ou necessitam de cuidados especiais para as cidades vizinhas como Amparo, para tratamento e ou atendimento na APAE e ainda junto ao CRAS  e ao CREAS, combatendo o risco social e fortalecendo os vínculos na comunidade.

JT- Quando surgiu a ideia de ser motorista?

Norma – A ideia veio desde criança, eu morava em São Paulo (capital) e cresci vendo mulheres dirigindo ônibus. Foi um sonho. E meu sonho sempre foi ser motorista, algo que considerava normal mulher dirigir ônibus, caminhão…

JT- E você dirige desde quando?

Cresci, casei e meu marido na época não me deixava dirigir nada além de carro. Carro sempre dirigi. Viajava para a praia, fui a motorista em uma viagem ao nordeste, criei meus filhos, mas tirar a “carta D” (motorista profissional), não. E não gostava que eu trabalhasse também. Após a separação resolvi renovar minha carteira de motorista com a tão sonhada letra D e passei a procurar concursos na área, já morando em Serra Negra.

JT- Quando foi o primeiro concurso e como foi?norma1

Em 2010 prestei concurso e passei para motorista de Caminhão e não fui chamada, na época trabalhava como gerente  de hotel e acabei não fazendo muita questão. Mas não desisti. Por que meu sonho sempre foi dirigir ônibus, ou caminhão, van, queria ser uma (motorista) profissional.Em 2013 prestei um novo concurso e desta vez fui chamada. Fiquei sabendo que em 2010 os motoristas ameaçaram pedir demissão caso eu fosse efetivada. Atualmente são todos amigos e nos divertimos bastante com isso.

JT – Você está ligada a qual departamento aqui em Serra Negra? 

Eu sou motorista da Assistência Social, aqui em Serra Negra, CRAS, CREAS e Conselho Tutelar. Quando passei no concurso era ligada à Educação, mas a Assistência Social não tinha motorista e acabei escolhida por preferirem uma  mulher em função das atividades, lidar com crianças, psicólogas, etc. Todo serviço social que a prefeitura realiza, sou eu quem levo. Por exemplo para a APAE de Amparo, abrigos, crianças que precisam de um atendimento especial que não temos na cidade ou na medida em que elas necessitam. Acidade de Serra Negra custea todo o atendimento junto à APAE, transporte, etc.

JT- Como é o seu dia-a-dia?norma2

Começo as 6 da manhã e pego as crianças, com as mães que acompanham sempre, uma vez que não tenho atendente junto comigo e passo de casa em casa, vamos a Amparo, as deixo na APAE, volto para Serra Negra e fazemos visitas pelo CRAS e o CREAS, atendendo denúncias, caso de crianças em risco, idosos, dificuldades para se alimentar, etc. Sempre com o acompanhamento de psicólogos e assistentes sociais. Um trabalho muito importante que a população em geral não conhece muito em função da pequena divulgação. O objetivo é manter as crianças o máximo possível perto de suas mães e familiares.

Trabalho se segunda, quarta e sexta no CRAS e terça e quinta no CREAS. Pela manhã na APAE.

Para entender melhor

O CRAS busca prevenir a ocorrência de situações de riscos sociais através do desenvolvimento e monitoramento das famílias com atividades que promovam o fortalecimento dos vínculos familiares e sociais, aumentando o acesso aos direitos da cidadania.

O CREAS oferece apoio e orientação especializados a pessoas que já têm suas situações de risco comprovadas, ou seja, que são vítimas de violência física, psíquica e sexual, negligência, abandono, ameaça, maus tratos e discriminações sociais. O trabalho do CREAS baseia-se em:

– Acolher vítimas de violência;
– Acompanhar e reduzir a ocorrência de riscos, seu agravamento ou recorrência;
– Desenvolver ações para diminuir o desrespeito aos direitos humanos e sociais.

JT- Qual sua relação com esta crianças? Você criou algum vínculo?

Tenho um vínculo com as crianças e com as mães. Costumo dizer que tenho crianças de todas as idades, dos 4 em diante geralmente. Paulo (nome fictício) é uma criança de 19 anos, embora tenha esta idade, é uma criança, tem a mentalidade de uma criança. Não falava, não andava e hoje já apresenta muitas melhorias. Existe um progresso. E vai continuar sendo atendido na APAE.  Tem ainda o Carlinhos (nome fictício) que não falava quase nada e atualmente já fala perfeitamente. Lá todas as atendentes são especializadas, tem treinamento específico na área.

Tenho um carinho todo especial por estas crianças e mães, por que não se fala outra coisa “em minha van” que não seja dos filhos, de remédios, como foi o atendimento. Estou acompanhando o progresso delas. São mães interessadas em que os filhos progridam e possam a viver com outras crianças, levarem uma vida normal.

JT – Conte algum caso que marcou você ao longo destes 6 anos

Tem um caso de uma avó que está pleiteando a guarda de uma criança e o juiz deu a ordem para que a criança viesse até a cidade para passar o feriado com ela e percebi o quão importante foi a experiência para ambos. Talvez o juiz decida-se pela guarda da criança favorável à avó. Fora inúmero casos de crianças que são retiradas de ambientes de maus tratos, abusos, etc.

JT-  O quê você faz como cidadã?

Em meu setor de trabalho estou sempre buscando observar as questões das estradas, ouço pessoas de diferentes bairros e acabo por fazer reste papel de porta-voz levando as reclamações e ou solicitações para o secretário, já que a cidade é grande e por mais que exista um trabalho sério, as pessoas as vezes não sabem a quem recorrer, por serem muito humildes. Sempre alguém precisa de um remédio, ou ir a um hospital, etc., e a prefeitura fornece estes serviços gratuitamente, como o AME por exemplo.

JT- O que é mais difícil, dirigir a van ou fazer a manutenção? Quando fura um pneu, você o troca?

Dirigir é tranquilo. Já conheço a van pelo barulho. Qualquer sinal diferente já percebo. Troco o pneu sim. Cuido dela (a van) como se fosse minha. Eu mesma a lavo. Se queima uma lanterna já peço para trocarem. Adoro fazer isto. Até para ajudar os lavadores que são bastantes ocupados.

A seguir algumas fotos da Norma e a Van (realmente muito limpa e impecável, até os pneus novíssimos).

 

Está precisando de ajuda ou sabe de alguém que precisa de atendimento?

CRAS – Centro de Referência de Assistência Social “Olga Maria Amadeu Menegatti”:
Rua Santo Antônio, 02
Bairro Palmeiras
Tel: 3892 4790

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